terça-feira, 24 de setembro de 2013

Tony, the homeless.

Quando eu fui para os Estados Unidos em julho, fiquei na casa da minha madrinha em Elizabeth, NJ.
Nova York fica a aproximadamente 30 minutos de trem. Sem ter muito o que fazer na casa e doida para conhecer o máximo de pessoas e lugares possível, eu ia para lá todos os dias. Andava, fotografava, conversava com turistas e moradores da cidade.
Num belo dia, depois de uma chuva de fim de tarde, sentei para descansar na escadaria do Correio Principal, em frente à PennStation.
Estava lá vendo os passantes e o por-do-sol na Big Apple, quando chega perto de mim uma mulher de uns 40 e poucos anos. Ela olha ao redor, coloca cuidadosamente seus pertences no vão coberto entre as portas e a escadaria, se deita e sorri, me pedindo desculpas pelo incômodo.
Ela não era maltrapilha nem nada, usava um tênis Nike e carregava várias sacolas. Demorei uns minutos para perceber que ela era uma moradora de rua americana. Nós começamos a conversar sobre coisas corriqueiras, como a chuva e a grande quantidade de gaivotas que passavam por nós. Quando contei a ela que eu era uma turista brasileira, ficou muito animada. Pediu para eu dizer algumas palavras em português, perguntou se eu estava aproveitando bastante a viagem e se era minha primeira vez nos EUA. De repente ela tirou duas moedas de uma bolsinha que carregava e me mostrou. Eram um iene e um euro que ela havia ganhado de turistas. Vasculhei minha carteira e achei uma moeda de 50 centavos e oferecei a ela, que não parou de me agradecer. "Se eu não posso conhecer todos os países, pelo menos posso ter moedas deles." Com a conversa fluindo bem, me senti à vontade para perguntar como ela havia chegado ali. "Meu marido me bateu e eu fugi de casa. Prefiro ficar na rua do que na mesma casa que aquele monstro." Ela contou que não conhecia nada de Nova York, não ia ao píer, nunca havia estado nos museus nem na Estátua da Liberdade. Conhecia apenas os arredores da 34th Street, onde costumava passar as noites. "Não tenho vontade. Eu não gosto das pessoas, elas são más. Não confie nelas. Tudo nesse país é dinheiro, e se você não tem dinheiro, não tem valor. Não tem nada." Me contou também que preferia a rua aos abrigos, pois lá as pessoas "usam muitas drogas". E também por causa das drogas preferia não ter amigos.
Fiquei impressionada com a lucidez e clareza de raciocínio daquela mulher. Me contou também que estava triste porque enquanto dormia, um homem havia furado seus tênis à procura de dinheiro. "Eu não tenho dinheiro. Se tivesse, não estaria aqui. E mesmo assim ele estragou meus tênis..." Mas Tony tinha um plano. Ela queria encontrar a filha, que morava em uma cidadezinha nos arredores de New York City e que havia recentemente dado à luz a uma menininha chamada Penélope. "Quando eu encontrar minha neta, vou mostrar todas essas moedas pra ela." Eu desejei boa sorte na procura e ela me perguntou se eu tinha algum número de telefone americano. Disse que sim, ela me passou o dela, prometi ligar em breve, me despedi e fui embora. É incrível como é fácil ter as coisas naquele país, onde mendigos têm Nike e celulares mas não tem o que comer. Onde o dinheiro e os bens materiais são tão acessíveis que camas king size, iphones e carros são artigos de necessidade básica. Mas nunca vou me esquecer daquela mulher simpática e inteligente que me contou sua vida, seus sonhos e frustrações nos poucos momentos que passamos juntas, que continuava com esperança e planos para o futuro, que se emocionou ao ganhar uma moeda de 50 centavos e que me agradeceu, no fim, por lembrá-la que ela realmente existe.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Fever Pitch ou Amor em Jogo.

Depois de comer, peguei o metrô pro Fenway Park. O Red Sox ia jogar aquele dia, então as visitas guiadas seriam até às 16h.
Assim que eu cheguei comprei meu ingresso do tour e fui andar em volta do estádio. Encontrei um casal de algum lugar da América Latina, não me lembro o país. O cara devia ter uns 20 e poucos anos e falava português muito bem. Tirei umas fotos pra eles, que pareciam super felizes por ter encontrado alguém para praticar o idioma. Falei pra eles do tour e eles ficaram super felizes (custava R$12, se não me engano), mas depois de saberem o preço disseram que não tinham grana para aquilo e foram embora, chateados.
Foi um dos momentos que eu percebi como não estava passando vontade de nada e estava fazendo tudo que eu queria e comendo onde eu bem entendia. Como ia demorar um pouco pra começar o tour, eu entrei no Sports Bar, o "Primeiro Bar de Esportes dos Estados Unidos!". Fiquei lá descansando, mas como era menos de 21, não podia beber por ser menor de idade e não estava com fome. Pedi água. Veio num copo cheio de gelo com um canudinho. Eu terminava e a garçonete me perguntava se eu queria mais. Ela encheu meu copo três vezes e não me cobrou nada. Eu acho simplesmente o máximo eles não cobrarem pela água nos bares e restaurantes, e não é aquela água porca de torneira que o dono do estabelecimento te entrega com cara feia e má vontade quando você não tá pagando. Eles são realmente atenciosos. E no bar tinha um quadro autografado do Kevin Garnet com a camisa do Red Sox. E um outdoor do Blue Man Group com os dizeres "Our skins are blue but our sox are red." Mas voltando... saí do bar e fui ao museu/loja onde era o ponto de encontro pra iniciar o tour.
Foi sensacional, chegamos pertinho do campo, pelo interior do estádio, no alto da Green Monster, a guia contava histórias super interessantes sobre ex-jogadores e curiosidades do Fenway, que é um dos estádios mais conhecidos do mundo e atraem torcedores de diversos times para uma visita. Como era dia de jogo, enquanto ainda estávamos lá os jogadores começaram um treino-aquecimento.
O beisebol é um esporte que depende das condições climáticas. Havia uns 10 ou 15 caras de plantão para cobrir a parte de terra caso começasse a garoar, e foi o que aconteceu. Eles rapidamente esticaram uma lona sobre o home e as bases, mas o sol logo saiu de novo e eles descobriram a área num movimento rápido e eficiente. Detalhe: No jogo do Yankees onde eu havia ido, teve um Rain Delay, que é quando a partida para e espera-se a chuva passar. O delay durou 1h e meu primo disse que, se não passasse, eles remarcariam o jogo e todos os presentes teriam direito a voltar e assistir sem pagar mais nada.
Mesmo não sendo muito fã de beisebol, achei a história e o lugar impressionantes. Eu acho um esporte muito parado e cheio de regras complicadas, mas os americanos são vicianos - só não mais viciados que em futebol americano, cuja temporada só começa em setembro.
Depois do Fenway fiquei um tempo na lojinha, onde comprei uma camisa de jogo (que achei que nunca usaria) por apenas 20 dólares. O preço era 60, mas como o Crawnford estava saindo do time, peguei a promoção Bye Bye Players. Meu primo havia conseguido lugares excelentes de graça para nós no Yankee Stadium, então achei melhor não gastar mais dinheiro em ingresso de jogo. Saindo, vi a multidão uniformizada que chegava para o jogo. Uma das cenas que mais me marcou foi um pai e um filho gordinhos, acompanhados pela mãe e ela filha mais nova. Eles fizeram o tour comigo. O menino segurava uma sacola com a camisa nova dos Red Sox que seu pai lhe dera e ambos comiam um cachorro quente. Cena mais americana, impossível.
Fui então para o meu hostel no Chinatown. Estava cansada, carregando bagagem pesada e me perdi várias vezes até encontrar o lugar. O Hostelling International Boston tem ambientes bem agradáveis e eles oferecem free cookies no check-in.
Como não havia feito reserva, acabei ficando em um quarto misto. Cheguei umas 18h e capotei. 1h mais tarde entraram uns caras fazendo barulho e me acordaram, mas eu não me incomodei com isso porque queria explorar a cidade. Levantei, lavei o rosto e fui
explorar os arredores. Descobri que o hostel ficava do lado do parque Boston Common. O lugar é lindo, e mesmo sendo quase oito da noite ainda estava claro e o céu muito azul. Muitas pessoas passeando com cachorros e crianças, bicicletas, piqueniques e frisbees. Havia um palco montado com milhares de pessoas em suas cadeiras de lona, esperando. Fui me informar e descobri que haveria uma representação de uma peça de Shakespeare - Dois Cavalheiros em Verona. Mas não era um palco improvisado e sem recursos. Era um verdadeiro espetáculo, com iluminação profissional, livreto com o roteiro da peça e orquestra. Mas ainda levaria algum tempo para começar. Centenas de famílias aguardavam ansiosas. Presenciei o por-do-sol mais sensacional da minha vida, com o céu se mesclando em tons de amarelo, laranja e azul... e voltei para a plateia. Sentei ao lado de uma típica família americana, com três filhos meninos. O pai, de óculos, se deleitava com a expectativa de Shakespeare. Vários grupos de amigos com toalhas estendidas, caixas térmicas com bebidas e quitutes. Começou. Eu não entendi muito bem a peça, mas porque estava interessada em ver a reação das pessoas. Eles estavam achando aquilo muito divertido. Os três meninos riam sem parar e eu imaginava a vida que eles teriam. O pai sai do trabalho e convida a família para ir ao parque, os meninos aproveitando as férias de verão de forma produtiva. Grupos de amigos que pareciam ser estudantes de ciências humanas riam juntos. Eu achei interessantíssimo. A peça teve um intervalo, mas depois de três horas eu me cansei e voltei pro hostel. Eu queria sair pra comer mas só havia Dunkin' Donuts ao meu redor. Sério, por ser uma empresa de Massachussets, para todo lugar que você olha tem uma unidade. Mas estava tão cansada que acabei desistindo. Cheguei ao meu quarto e conheci meus rommies: dois americanos da Califórnia que serviram no exército, um outro cara que não disse de onde era e uma irlandesa. Eles me deram uma cerveja e todos nós conversamos um pouco, mas a minha sorte foi que todos eram maiores de idade e saíram pra beber, então pude dormir em paz. No dia seguinte eu acordaria cedo, tomaria o café da manhã oferecido pelo HI, deixaria minhas coisas no armário e saíria para explorar a cidade.
TD Garden, Freedom Trail, Government Center e Harvard formavam meu roteiro. Meu voo sairia de Boston rumo à Miami às 5h e eu dormiria no aeroporto para não ter que a) ter o trabalho de acordar de madrugada e pegar táxi para chegar e b) não pagar mais um dia de hospedagem. Durante o café da manhã conversei com um menino da Coréia que estava fascinado pelos lugares que estava conhecendo e que pareceu meio surpreso por eu ter puxado assunto com ele. Tomei um banho, fiz o check-out e fui rumo ao TD Garden. Eu não sabia se havia visitas guiadas por dentro do ginário ou não, por isso fui até lá conferir. A entrada é na verdade uma estação repleta de posteres dos jogadores. A cidade é realmente reconhecida por seus times e os esportes são supervalorizados! Parece que tudo ali gira ao redor disso. Bruins, Celtics, Red Sox e Patriots. Realmente havia um tour que custava U$5 - acho que por estar fora da temporada tanto de basquete quanto de hóquei. Tempo e dinheiro foram muito bem gastos na lojinha do time, e eu estava realmente ansiosa. Entramos no vestiário das equipes adversárias, vi de perto o armário que o "astro" do adversário costuma usar - ou seja, Lebron James, Kobe Bryant e afins. Os banheiros dos vestiários tem chuveiros de uns 2 metros e meio. Eu esticava a mão e ainda assim não conseguia alcançar. Também, só assim pra aqueles caras caberem... entramos na quadra, eu sentei na primeira fileira e imaginei como seria sentar-se naquele mesmo local num dia de jogo, onde era preciso apenas esticar a mão para tocar os jogadores. Fiquei sem palavras ao ver as bandeirinhas do Celtics acima, exatamente como eu via na TV, só que bem mais emocionante. As cadeiras do TD Garden são amarelas e pretas, as cores do Bruins, mas nos jogos da NBA as camisas branco e verdes pintam o ginásio e eu nem tinha reparado nesse detalhe. Como serve tanto para hóquei como para basquete, não havia quadra ou ringue "montado", mas apenas um chão de concreto cinza. A guia nos mostrou onde ficavam as cestas e tabelas e traves e máquinas de fazer gelo e disse que como as temporadas batem, os dias que tem jogos das duas equipes, os funcionários levam até 2h para tirar uma formação e montar a outra. Depois fomos para a sala de imprensa (onde eu vejo na TV aqueles banners enormes dos times e dos patrocinadores e onde negões simpáticos com triple doubles dão entrevistas). Prometi à mim mesma que voltaria ali um dia para cobrir um jogo...
Acabamos o tour no Museu do Esporte de Boston, com tênis, equipamentos e uniformes de jogadores lendários e uma estátua em tamanho real do Lerry Bird, um dos melhores jogadores do Celtics de todos os tempos.



Saindo do TD Garden, peguei o metrô para Cambridge, rumo à Harvard.

Boston, Massachussets.

Fiquei apenas dois dias em Boston e foi, de longe, minha cidade preferida.
Os edifícios são adoráveis, a arquitetura é antiga e muito bem conservada.
A cidade não sufoca, pois o mar traz uma corrente de ar bem refrescante (é por isso que Boston tem um dos invernos mais rigorosos dos Estados Unidos). Repleta de parques e banhada pelo oceano Atlântico, o píer perto do New England Aquarium é um ótimo local para sentar-se e ver as embarcações passando. A Seafood de Boston é uma referência na culinária. Um dos pratos mais famosos é o Clam Chowder, uma sopa de frutos do mar deliciosa e barata que vende em qualquer lugar. Eu comi no Legal Sea Food, perto do Píer, e em dois dias tomei o Chowder duas vezes. As mesinhas ficam de frente para onde os ônibus Open Top saem, então você pode almoçar e depois dar um passeio pela cidade, há muitas flores enfeitam o local, que recebe turistas de todas as partes do mundo. Também há um Legal Seafood no alto do Prudential Building, com vista para toda a cidade.
Saí da rodoviária de Nova Iorque às 3h30 da manhã rumo à Massachussets. Estava com uma bolsa e uma mochila porque teria que ir à Florida depois e não queria segurar muito peso. Cheguei numa manhã chuvosa de terça-feira e já dei de cara com o Wharf District Park, um parque no meio de duas avenidas e paralelo ao píer. Fui andando até chegar ao Aquarium e quanto mais eu via, mais eu me surpreendia com a beleza das construções. No Seaport District, entrei no ônibus Open Top 24h, desses que você paga U$35 e pode subir e descer a vontade nos pontos turísticos que quiser. Eu dei uma volta completa para ter uma noção da dimensão da cidade, passando pelo bairro de Beacon Hill (famoso pelas construções de luxo), pelo TD Garden (estádio do time de basquete Boston Celtics e de hóquei Boston Bruins) e pelo Fenway Park (casa do time de beisebol Red Sox). O ônibus atravessou a ponte do Rio Charles e foi para Cambridge, passando pelo MIT e Harvard, duas das melhores faculdades do mundo. Passou também pelo Public Garden e Boston Common, o maior parque público de Boston. Pelo Prudential Buiding onde fica o Skywalk Observatory, pelo centro com os prédios do governo, pelo bairro Chinatown, endereço do meu hostel, e pelo Back Bay, outro bairro conceituado. Voltando ao Seaport District, eu estava tão cansada que não tinha disposição para recomeçar o passeio descendo nos pontos turísticos. Afinal, eu só teria dois dias e sabia muito bem aonde queria ir, então achei melhor pegar o metrô. Por causa disso o motoristas do Open Top falou que eu não precisaria pagar, pois não usufruiria do serviço. Ah, os americanos são muito justos. Minha madrinha que mora lá há mais de 25 anos costuma dizer que "essa é a terra da confiabilidade". Desci do ônibus, atravessei a rua, pedi o Chowder no Legal SeaFood e me apaixonei perdidamente. É muuuuito bom!